Atletas do semiárido brasileiro treinam na Chapada Diamantina e mostram força feminina no atletismo
Por: SPORTCLICK em Atletismo • 14/03/2026

Henrique Barrios/MEsp
No coração da Chapada Diamantina, na Serra dos Morgados, interior da Bahia, atletas do semiárido brasileiro vivem uma rotina intensa de treinos. É onde o time olímpico da Associação Petrolinense de Atletismo (APA) realiza um período de treinos em altitude com a participação de corredoras e corredores que vêm transformando o atletismo em um caminho de alto rendimento e projeção nacional.
Entre elas estão Mirella Saturnino, Monique Alves e Laís Dias, três mulheres que encontraram na corrida não apenas uma modalidade esportiva, mas um projeto de vida. Integrantes do Projeto Olímpico e Paralímpico do Sertão, as atletas representam uma geração de talentos que surge em Petrolina (PE) e ganha espaço no cenário esportivo brasileiro.
O projeto da APA é financiado por meio da Lei de Incentivo ao Esporte e atende atualmente cerca de 110 atletas olímpicos e paralímpicos de alto rendimento, além de garantir estrutura de treinamento, materiais esportivos e participação em competições regionais, nacionais e internacionais.
Para muitas dessas atletas, o acesso a esse ambiente de alto rendimento significou a possibilidade de transformar talento e disciplina em oportunidades concretas de crescimento no esporte e na vida.
Durante o período de treinamento na Chapada Diamantina, os dias começam cedo e terminam com quilômetros acumulados nas pernas. A maratonista Mirella Saturnino, uma das referências da equipe e beneficiária do Programa Bolsa Atleta, explica que o trabalho exige dedicação total.
“Minha rotina de treino é de segunda a sábado, com atividades de manhã e de tarde. Dependendo da semana, a gente chega a correr entre 170 e 180 quilômetros”, conta. A atleta destaca que a convivência com o grupo também faz parte do processo de evolução.
Terceiro-sargento da Marinha do Brasil, Mirella também acumula conquistas importantes no atletismo. Entre elas está o título da Maratona do Rio de Janeiro em 2024, resultado de uma trajetória construída com disciplina e persistência.
Segundo ela, o Bolsa Atleta trouxe estabilidade para investir na carreira esportiva. “Hoje consigo investir na minha preparação, melhorar minha alimentação e ainda ajudar minha mãe. Isso faz muita diferença para quem vive do esporte”, afirma.
AS ATLETAS ESTÃO SENTADAS DE LADO E SORRINDO.
Foto: Henrique Barrios/MEsp
Novos talentos surgem no sertão
Se Mirella é um nome consolidado, outras atletas começam a trilhar caminhos semelhantes inspiradas por ela. É o caso de Monique Alves, de 29 anos, que iniciou na corrida de rua há pouco mais de um ano.
O começo foi quase por acaso. Monique sempre gostou de atividade física, mas nunca imaginou que poderia se tornar atleta. “Um amigo meu começou a insistir para que eu participasse de uma prova. Ele dizia que via um talento em mim que eu mesma não enxergava”, lembra.
A partir daí, ela começou a treinar com mais regularidade e a participar de competições. Aos poucos, a corrida deixou de ser apenas uma atividade ocasional e passou a ocupar um espaço central em sua rotina.
O convite para treinar com a equipe da APA veio depois, por meio de amigos que já integravam o grupo. “No começo eu achei que era algo muito grande para mim. Parecia distante demais. Mas quando percebi que era uma oportunidade única de aprender com essa equipe, decidi vir”, conta.
Hoje, Monique participa da preparação na Chapada Diamantina e vê no atletismo uma chance de desenvolver seu potencial e crescer no esporte. “Treinar com atletas desse nível e com um treinador experiente é algo que faz a gente evoluir muito.”
Atleta posa para a Câmera em pé e com as mãos na cintura
Atleta Laís Dias. Foto: Henrique Barrios/MEsp
Corrida como caminho de transformação
A jovem Laís Dias, de 21 anos, também encontrou na corrida uma forma de ampliar horizontes. Especialista em corridas de rua, ela começou a competir em 2021 e rapidamente percebeu que o esporte poderia abrir novas possibilidades.
“O que me motiva é minha família. A corrida mudou muito a minha vida desde que comecei”, afirma.
Entre as conquistas que mais a emocionam estão gestos simples, mas significativos para quem veio de uma realidade de poucos recursos. “Consegui comprar um fogão para minha mãe e bicicletas para meus dois irmãos. São coisas que para mim representam muito.”
Além disso, o atletismo também tem sido fundamental para que ela siga estudando. “Eu estou quase terminando minha faculdade. Falta mais um ano. O esporte tem me ajudado a continuar com esse sonho”, diz.
Entre os próximos objetivos está conquistar o Bolsa Atleta, que permitiria maior estabilidade para continuar competindo em alto rendimento.
Projeto fortalece o atletismo no Nordeste
Fundada em 2003, a Associação Petrolinense de Atletismo começou com um pequeno grupo de corredores em Petrolina (PE) e hoje reúne cerca de 150 integrantes. Ao longo de mais de duas décadas, a instituição soma a participação de mais de 1.500 pessoas e conquistou centenas de medalhas em competições nacionais e internacionais.
Entre as iniciativas desenvolvidas pela entidade está também o projeto Corredores de Rua Elite Nacional, voltado à formação de atletas de alto rendimento para provas de meia maratona e maratona.
Com estrutura técnica, acompanhamento multidisciplinar e suporte logístico para participação em competições, o projeto busca ampliar a presença de talentos do sertão nordestino no cenário esportivo brasileiro.